Porque Não Gostei da Série Chespirito
Como um brasileiro nascido no começo dos anos 90 eu obviamente sou fã de Chaves e Chapolin. Passando por diferentes fases, como ficar na frente da TV consumindo as séries pelas exibições clássicas do SBT, até ler sobre os episódios perdidos com a “chegada da internet” e depois acompanhando as séries e vídeos no Youtube e Streamings.
Quando a série Chespirito: Sem Querer Querendo foi anunciada e ganhou uma “cara”, com elenco definido, teaser e trailer, quase irracionalmente, eu deixei de lado meu cinismo e fiquei aguardando ansiosamente para assistir o primeiro episódio.
Para não escrever uma introdução mais extensa do que essa, vou ser direto e dizer que não gostei da série! E vou pontuar abaixo o que mais me incomodou nela. Mas também vou pontuar coisas que, aparentemente, incomodaram outras pessoas e não à mim, e coisas que, de fato, gostei na série e acho que merecem elogio.
Ritmo e mudança de timeline
Já no primeiro episódio, eu não poderia ficar mais frustrado com a quantidade de mudanças e vai-e-vem temporal que vemos na série. Ela salta entre vários anos, desde os anos 80 até a infância de Bolaños de uma forma insuportável. Não é como se a série estivesse contando uma história e fizesse a introdução de um flashback. Não. É literalmente uma colcha de retalhos com diferentes momentos da vida e carreira de Chespirito.
Mais tarde, me lembrei do filme Elvis (2022), outra experiência horrível, basicamente pelo mesmo motivo. Veja bem, o problema não é ter uma timeline não-convencional. Muitos filmes usam desse recurso e fazem isso de forma brilhante. Pulp Fiction é um dos meus filmes favoritos, e talvez o meu favorito de Tarantino. E se tem um diferencial nesse filme, é que a estrutura narrativa não é exatamente linear, muito menos cronológica. Mas em Pulp Fiction isso serve à forma como a história é contada, ajudando o filme à ter um apelo na sua narrativa. Já em Chespirito, ou Elvis, as mudanças de tempo só servem para interromper algo que queríamos assistir com mais profundidade. Impossível não imaginar que esse é algum tipo de truque para manter a atenção de uma geração cada vez mais acostumada com vídeos curtos e trocas abruptas de contexto. A série parece um compilado de trailers da mesma, e assim como no filme do Elvis, parece que a história de fato nunca começa, e nunca vai para lugar nenhum.
Eu até imaginei que isso poderia acontecer só no primeiro episódio, e continuei assistindo esperando que melhorasse. De fato esse problema diminui ao longo da série, mas parece não resolver o problema.
Dramatização caricata e exagerada
Outra coisa que me irritou profundamente assistindo Chespirito, é o exagero em todas as relações entre os personagens. Tiveram também cenas exageradamente fantasiosas, como o pequeno Roberto usando o chapeuzinho do Chaves na infância, falando “foi sem querer querendo” e visitando, mais tarde, uma vila que é praticamente uma réplica do seriado. No momento de criar o Chapolin, Roberto se depara com um gafanhoto na mesa do seu escritório, e depois sua filha fala a palavra “colorado”, em uma piada. Voilà: Assim foi criado o Gafanhoto Colorado. Tudo com musiquinha de fundo, câmera lenta, como que esfregando na cara do expectador que aquele era um momento sagrado de iluminação do criador. É claro que uma cine biografia, ou série biografia, pode usar de recursos como esses para dar destaque à momentos importantes. Mas de novo, não se trata de um momento ou dois. A produção exagerou no tom.
E o que dizer sobre todos os terríveis inimigos de Roberto Bolaños? A série força com produtores, em especial um personagem, que foi praticamente inventado para querer derrubar Chespirito à todo momento, à qualquer custo. Sendo o antagonista mais forçado possível. Carlos Villagrán também aparece como um sabotador de Chespirito e da produção de Chaves. A gente sabe que essa treta realmente existiu, e que Villagrán provavelmente foi muito arrogante quando deixou o seriado e seguiu seu caminho próprio como Quico. Mas a série consegue dar o seu tempero de dramatização extrema e deixar tudo fora da realidade demais.
A deterioração conjugal de Roberto Bolaños também é um tema constante na série. O que com certeza não poderia ficar de fora, em algum nível, mas acaba tomando um tempo demasiadamente dramático de toda a trama.
Todo mundo reclama, mas foi ok pra mim
Série Chapa Branca
Não foram poucas as opiniões que vi pela internet, em escrito ou por vídeo, de que a série é muito chapa branca. Uma crítica que considero muito fácil, se tratando de biografias. É como se, ao ser lançado uma biografia, todos quisessem saber: “Vai contar os podres, ou vai ser chapa branca?”.
Acho que a série não deixou de mostrar que existiam conflitos na produção e que não era tudo um conto de fadas bem humorado, como o seriado que eles filmavam. A série também não deixou de fora o casamento decadente de Chespirito com sua esposa, o que poderia ter sido escondido pelos filho de Bolaños, principais responsáveis pela série.
A série é chapa branca? Muito pelo contrário. Ela foca demais em brigas e fofocas ao invés de dar um pouco mais de tempo de tela para a produção dos seriados, que é de longe, o que eu gostaria de ter assistido mais. Se a série é chapa branca, ela é chapa branca por que? O que de tão nefasto deixou de ser escancarado pela produção? Essa crítica eu realmente não entendo.
Troca de nome dos personagens
Não vi muita gente comentando sobre isso depois da série, mas principalmente antes dela ser disponibilizada. Florinda Meza e Carlos Villagrán não autorizaram o uso de seus nomes na série e tiveram seus personagens rebatizados para Margarita Ruíz e Marcos Barragán, respectivamente.
Outro que teve seu nome alterado na produção foi o diretor do seriado Henrique Segoviano, que foi chamado de Mariano Casasola.
Isso de nenhuma forma me incomodou porque Carlos Villagrán e Henrique Segoviano foram fielmente retratados fisicamente, e assim como Florinda, fica muito claro que aqueles personagens se tratam daquelas pessoas da vida real. É quase automático aceitar esse fato, entendendo que nem todos estavam de acordo com a narrativa que a série seguiria. E se não fosse assim, aí sim teríamos uma série 100% chapa branca. Já imaginou uma série onde não falam que o Chespirito traiu sua esposa, com quem teve seis filhos, com a atriz principal do seu elenco; que, inclusive, teve um relacionamento sério com o diretor do seriado?
Qualidade visual de excelência
Existem dois pontos que série acertou e isso é inegável: Elenco e qualidade de produção visual.
O elenco foi uma escolha perfeita. Apesar de todos os problemas narrativos e escolhas de roteiro, ainda assim todos se provaram grandes atores.
As semelhanças dos atores com os atores reais, em alguns casos, são incríveis. Chespirito, Maria Antonieta (Chiquinha), Carlos Villagrán (Quico), Angelines Fernandez (Dona Clotilde) e Henrique Segoviano (diretor) são muito verossímeis aos olhos. E suas atuações ajudaram a perpetuar a aparência.
Outros, como Ramón Valdez (Seu Madruga), Horácio Gomez Bolaños (Godinez) e Rubén Aguirre (Professor Girafales) não são especialmente parecidos, mas ainda assim, conseguiram interpretar os personagens de forma impecável.
Salvo a exceção de Edgar Vivar (Seu Barriga) que teve a escolha mais estranha e diferente para o papel.
Todo resto que se trata do visual, como ambientações e figurinos, ficaram perfeitos! O México dos anos 40 ao começo dos anos 80, os estúdios de televisão, tudo foi feito de uma forma altamente profissional.
Parece bobagem reforçar esse tipo de elogio, mas vimos recentemente representações biográficas deploráveis aqui no Brasil, como o filme do Silvio Santos (sim, aquele do Rodrigo Faro) e o maldito filme dos Mamonas, onde a produção deixa na cara sua falta de qualidade.
A série que eu gostaria de ter visto
Finalizo esse texto reforçando que, infelizmente, não gostei da série. Chaves e Chapolin, e todo o “Universo CH” é algo que me cativa muito. E com um elenco brilhante nas mãos, algo muitíssimo melhor poderia ter sido produzido.
Trago como comparação a série Senna. Uma das melhores coisas que assisti no ano passado. Que série! Quando pensamos em Ayrton Senna, não tem como pensar em outra coisa senão em Fórmula 1. Foi isso que faltou na série de Chespirito. Faltou mais Chaves, mais Chapolin. Faltou mergulhar o expectador na criação de Chespirito. Não gastando tempo de tela com produtores vilões de mentirinha, nem com fantasias forçadas que dão emoção à um expectador de novelas. Mas deveria mostrar Bolaños criando, levando suas criações para o estúdio. Ensaiando e gravando, mostrando a química que o elenco inegavelmente tinha. Mostrar por outro ângulo coisas que vimos sempre no mesmo formato na TV.
Senna consegue mostrar vários relacionamentos que o piloto teve com diferentes mulheres, o relacionamento de amizade com Galvão Bueno, sua rivalidade com Prost e com a F1, o relacionamento com a sua família. Mas além de tudo isso, colocou os expectadores para arrepiar com cenas de corridas realmente hipnotizantes, não deixando de lado momentos em que ele foi campeão do mundo, o GP histórico no Brasil e também sua escalada desde a fórmula Ford.
Morro de “inveja” pensando por que? Por que Senna conseguiu ter essa série perfeita enquanto Chespirito, Silvio Santos e os Mamonas Assassinas ganharam biografias tão detestáveis?
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